Relatório técnico indica presença de substâncias associadas à formação de espuma em concentração 284 vezes superior ao limite permitido pela legislação ambiental

Um laudo técnico encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Betim (Semmad) aponta indícios de possível poluição industrial no Rio Betim. O documento foi enviado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (CBH Paraopeba) e indica que um resíduo associado a uma empresa do setor químico instalada no município apresentou concentração de substâncias formadoras de espuma 284 vezes superior ao limite permitido pela legislação estadual, além de elevado potencial de toxicidade.
Segundo o comitê, o laudo pode ajudar a explicar os episódios de espuma registrados pelo menos três vezes neste ano nos rios Betim e Paraopeba, fenômeno que gerou preocupação entre moradores, ambientalistas e órgãos de fiscalização.
O estudo foi elaborado pelo Centro de Inovação e Tecnologia do Senai Minas Gerais (CIT Senai), contratado pela Agência Peixe Vivo, entidade que atua como braço técnico e financeiro de comitês de bacia hidrográfica. As análises foram realizadas a partir de amostras coletadas em junho em trechos do Rio Betim e em pontos de lançamento de efluentes industriais, termo utilizado para designar a água descartada por processos produtivos.
Concentração acima do permitido
De acordo com o CBH Paraopeba, um dos efluentes analisados apresentou 567,94 miligramas por litro (mg/L) de surfactantes, enquanto o limite previsto na legislação mineira é de 2 mg/L. Os surfactantes, também chamados de tensoativos, estão presentes em detergentes, sabões e outros produtos de limpeza e têm a capacidade de reduzir a tensão superficial da água, favorecendo a formação de espuma.
O laudo também aponta que o mesmo resíduo apresentava pH de 13,04, considerado extremamente alcalino, característica associada a substâncias com forte potencial corrosivo e capaz de causar danos a organismos aquáticos.
Outro dado que chamou a atenção foi a concentração de 2.563 mg/L de sódio no efluente, enquanto as amostras coletadas no Rio Betim normalmente apresentariam valores entre 34 e 36 mg/L.
Testes indicam alta toxicidade
Os ensaios de ecotoxicidade descritos no documento indicaram que, mesmo diluído a 0,2%, o efluente teria provocado a morte de todos os organismos utilizados nos testes em até 24 horas. Esse tipo de análise é utilizado para avaliar o potencial de uma substância causar danos à fauna aquática.
O estudo também apontou alterações na qualidade da água em um trecho onde houve registro de espuma. Segundo o relatório, a água deixaria de ser considerada não tóxica antes do ponto de lançamento dos efluentes e passaria a apresentar toxicidade crônica após ele, situação que pode comprometer crescimento, reprodução e sobrevivência de organismos ao longo do tempo.
Entre os impactos observados estão ainda a redução de 83% da clorofila, pigmento essencial para algas microscópicas responsáveis pela produção de alimento na base da cadeia alimentar aquática, e queda de 84% no zooplâncton, conjunto de pequenos organismos que serve de alimento para peixes e outras espécies.
Comitê pede investigação e medidas ambientais
O CBH Paraopeba informou que o objetivo do envio do laudo é subsidiar as investigações para identificar eventuais responsáveis e permitir a adoção de medidas administrativas, civis e penais destinadas a interromper possíveis danos ambientais.
“A situação preocupa porque o Rio Betim deságua no Rio Paraopeba, que integra a bacia do Rio São Francisco, uma das mais importantes do país. Caso a contaminação seja confirmada, os impactos podem atingir a biodiversidade, o abastecimento de água e outros usos dos recursos hídricos ao longo da bacia”, afirmou o comitê em nota.
Até o momento, os órgãos responsáveis ainda não divulgaram conclusões definitivas sobre a origem da espuma ou sobre eventual responsabilização da empresa mencionada nas análises. O caso segue em fase de apuração pelos órgãos ambientais e pelo Ministério Público.







