
O burro ao invés do inteligente, o feio no lugar do belo, o barulho no lugar do
silêncio, a arrogância e a ostentação, no lugar da parcimônia e discrição. Talvez, você se pergunte:
isso é a síntese do Brasil? Ou pior, sempre foi essa a verdadeira faceta deste país.
Ora, se aquiete e deixa eu te falar que nesta celeuma de ideias cristalizadas, isso
é, sobretudo, reducionista em vários pontos. Um país de origem indígena, no qual,
subsequentemente teve sua formação cultural, religiosa e econômica diretamente influenciada
pelos portugueses e mais adiante pelos povos africanos; italianos; japoneses; espanhóis;
ingleses; alemães e até mesmo holandeses, ocasionando assim, por óbvio, uma miríade de
influencias socioculturais entrando em choque umas com as outras.
E dentro deste cenário surgiram várias comunidades, indivíduos e até mesmo
subculturas que moldou, hoje, as facetas de um Brasil muito mais complexo do que imaginamos.
E dizer que o Brasil é composto de pessoas, burras, incultas e ignorantes é negar a realidade que
nos fora posto de enxergar intelectuais tão importantes, mais tão importantes que são
publicamente reconhecidos para além de terras nacionais.
Santos Dumont que é lembrado por sua genialidade, seu idealismo e que
revolucionou a história da aviação; Oswaldo Aranha figura figura central para a criação do estado
Israel, Guimarães Rosa e Machado de Assis reconhecidos internacionalmente por serem um dos
maiores escritores de seu tempo.
Afirmar que esses casos são excepcionalmente anedóticos, seria no mínimo
anacrônicos, afinal de contas, em cada período histórico, o Brasil sempre esteve acompanhado
de figuras que em demasia, foram proeminentes. Claro! Uns mais conhecidos, outros menos.
Senão vejamos, a seguir o que Pero Vaz de Caminha descreveu do Brasil, quando
aqui se assentou, disse-o:
“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul
vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos
vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz
ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras
brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a
ponta é toda praia… muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar,
muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos —
terra que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata
nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito
bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e Minho, porque neste tempo
d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira
é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que
tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta
gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que
não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de
Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa
Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!” de Caminha, Pero Vaz. A
Carta”.
Vale recordar, a esse propósito, e olhar inaugural de Pero Vaz de Caminha sobre
esta terra. Ao descrever o Brasil em sua célere carta, ressaltou não apenas a exuberância natural,
mas também o potencial humano e civilizacional que ali se insinuava. Mais do que um relato
descritivo, esta citação revela que, desde o primeiro contato, o Brasil já se apresentava como um
espaço de possibilidades, não como um vazio moral ou intelectual.
Não quero, caro leitor que caia naquela velha e típica narrativa de vislumbrar
apenas as belezas naturais desta terra, não faça isso! Quero que saibas que, para além dessas
ricas belezas aos quais, atravessa essas penates de norte a sul e de leste a oeste (literalmente)
há também, outras riquezas para além-mundo, qual seja: As riquezas onde nem o ouro, nem a
prata podem corroer.
No entanto, para tu descobrires estas riquezas precisará: Solapar muito
profundamente. Não pense você que para encontrar estas riquezas seria de demasiada
facilidade, não! E isso, por si só não torna o Brasil, um país de gente bestial.
Pois, se realmente se propor a buscar tesouros de valores inestimáveis terás que
lutar arduamente, e isso vale em qualquer país que tu fostes visitar. Não caia na seguinte falácia:
“A grama do vizinho é mais verde” ou pior: “minha terra é imaculada”. O meu convite aqui é que
tenhas, ao menos, honestidade intelectual, para além de tudo enxergar onde deve e como deve
engendrar sua jornada com lucidez mental e espiritual.
Se afirmar que este país é, desta sua formação uma terra que exporta apenas os
piores exemplos seria este um sinal claro de que não conhece a história do próprio país, ou que
a conheceu através de fontes superficiais e/ou duvidosas.
Entender, além de tudo, de onde viemos, onde estamos e para onde vamos é
crucial para conseguirmos imaginar, enxergar, vislumbrar uma terra que seja mais profícua aos
nossos filhos e netos do que foi para nós, a lucidez e a honestidade intelectual são
imprescindíveis neste processo.
Conseguir enxergar o motivo pelo qual estamos dados uma cadeia de processos
aos longos de sucessivos anos, e atos político-econômicos que moldaram nossa psique enquanto
indivíduos e sociedades (por mais diversa que seja ela).
Ademais, olhar para os trezentos anos de escravidão como parte do passado
mais sombrio do Brasil, mas entender que muito das vicissitudes oriundo da escravidão demorou
um século para se resolver o que poderia demorar pelo menos 20 anos se não fosse o regresso
do golpe de 1889 é olhar para o passado com coragem e trazer a responsabilidade para si, (bem
a lá Dom Quixote ou até mesmo do Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin) sem desconsiderar o
apoio mútuo que eventualmente encontrares no caminho, tendo por certo de que ninguém
vence uma batalha sozinho.
Assim, devemos nos enxergar: como um povo que: Olha para si com
honestidade, para trás com lucidez e para o porvir com ideais vívidos, claros, concretos e
sobretudo íntegros, de modo que, não venhamos, facilmente, nos tornar seres corruptíveis.
Tampouco venhamos nos desanimar com a minoria barulhenta que tem tomado grande parte
das mídias sociais.
Caro leitor, uma batalha não é a síntese de uma guerra! Não tenha pressas em
vencer uma minoria barulhenta com os mesmos artifícios que eles a utilizam. A consistência na
jornada vale mais que os pequenos solavancos de popularidade. Eu sei, é acachapante quando
visualizamos este panorama a curto prazo, todavia, nenhum país cresce no curto prazo, quiçá em
quatro anos, ou seja, para esta miríade de popularidade, é medíocre ficar se digladiando, pois,
se continuar enxergando por esta ótica vai acabar caindo numa espiral (reducionista) de
narrativas idiossincráticas e na filosofia de Sísifo.
Nesse sentido, é oportuno lembrar a advertência de Olavo ao observar que: “É
de massas de jovens pseudoletrados que se compõe, precisamente, o ‘intelectual coletivo’ do
gramscismo: o aparelho partidário de agitação e propaganda, onde as distribuições de frases
feitas , de preconceitos e de cacoetes mentais faz a vida intelectual.”
Dito isto, aqueles que buscam se adentrar nas nuances mais intrínsecas da
cultura e política brasileira, mediante, meios “baratos” e “fáceis” estão fazendo uso de
ferramentas panfletárias.
Enquanto, aqueles que resistem às seduções de popularidade imediata e se
mantém fiéis a uma análise rigorosa talvez não colham aplausos no presente, mas estarão mais
bem posicionados no julgamento do tempo. Afinal, são estes que escapam das narrativas vazias
e frívolas – e é deles que, com maior probabilidade, as futuras gerações se lembrarão.





